Free cookie consent management tool by TermsFeed Generator

Prevenir o suicídio também é garantir renda, moradia e condições dignas de vida

Especialistas destacam que proteção social e condições de vida integram a prevenção. Pesquisas associam Bolsa Família a redução de suicídio e internações psiquiátricas

23.09.2026

Mulher empurra bicicleta em chão de lama com barracos ao fundo
Efeito da renda e moradia vão além da compra de bens de consumo. São condições de acesso a cidadania e autonomia (Foto: OMS/Anna Kari)

No Setembro Amarelo, a prevenção ao suicídio costuma ser associada à identificação do sofrimento psíquico e à busca por atendimento. Mas o debate não termina na porta dos serviços de saúde. Renda, moradia, trabalho, saneamento, acesso a direitos e vínculos sociais também compõem o ambiente no qual o sofrimento se desenvolve — ou encontra fatores de proteção.

 “Condições de Moradia, Saneamento básico, trabalho e renda, rede de relacionamentos, engajamento social são dimensões da vida que direta/indiretamente interferem o que chamamos de ‘saúde mental’”, destaca o coordenador da Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Anderson Funai, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).

Beneficiários do Bolsa Família apresentaram taxa de suicídio menor do que pessoas de características semelhantes que não recebiam o benefício, segundo estudo publicado na PLOS Medicine. A pesquisa analisou dados de 100 milhões de brasileiros entre 2004 e 2015 e identificou 36.742 mortes por suicídio entre pessoas com 10 anos ou mais. Depois dos ajustes estatísticos, o recebimento do benefício esteve associado a uma taxa 56% menor. Os pesquisadores registram limitações, entre elas a possibilidade de sub-registro e a ausência de algumas informações sobre transtornos mentais prévios, o que exige cautela na interpretação dos resultados.

Síntese de evidências publicada em junho pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) reúne pesquisas que relacionam o Bolsa Família a diferentes resultados de saúde. Entre as pessoas cadastradas no CadÚnico, beneficiários tiveram probabilidade 23% menor de hospitalização por transtornos psiquiátricos, diferença que chegou a 33% nos municípios mais pobres. Em outro estudo, receber o benefício após uma hospitalização por transtorno mental esteve associado a uma redução de 7% na mortalidade geral e de 11% nas mortes por causas naturais.

Os dados colocam as políticas de proteção social no centro de uma questão tradicionalmente tratada sobretudo pelo ângulo individual: como prevenir o sofrimento psíquico grave sem considerar as condições em que as pessoas vivem? “Esse processo de adoecer é multifatorial”, ressalta Funai. Há sofrimentos relacionados também ao meio, o que demanda “um envolvimento coletivo para que a vida, o processo de viver, seja menos adoecedor e mais produtor de vida”.

Renda e moradia criam possibilidade de escolha

Condições de moradia produzem sofrimento psiquico  (Foto: Peter Bauza)

O efeito da renda não se restringe à possibilidade de comprar bens. O psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Pública e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)  Walter Oliveira relaciona renda à autonomia e à cidadania.  “A renda permite que você faça escolhas”, afirma.

Oliveira cita a abordagem recovery como referência contemporânea no campo da saúde mental. O objetivo é apoiar a pessoa para que possa “encontrar ou reencontrar um significado na sua vida”, explica. Direitos e condições para exercer escolhas fazem parte desse percurso. “A renda é fundamental em garantir que você tenha esse direito de escolha, que é um pilar para você se sentir cidadão.”

Ter onde morar faz toda diferença. Oliveira traz a abordagem Housing First — ou Casa Primeiro — para explicar como a moradia também é condição necessária para reconstruir autonomia e participação social. O professor destaca, ainda, recursos que não são financeiros: centros de convivência, espaços públicos e outros equipamentos e relações existentes no território. “A disponibilidade de recursos é essencial para que as pessoas melhorem”, diz.

Para o militante e sobrevivente de comunidades terapêuticas Eduardo Real, essa relação entre renda, moradia, proteção social e Saúde Mental não é apenas objeto de estudo. Faz parte de sua própria trajetória. “Na situação de rua a gente tem muita dificuldade de trabalhar, né? Quando trabalha é com trabalhos extremamente precarizado, por exemplo a reciclagem.  Estando em situação de rua eu recorri a isso. Uma trabalho precarizado, onde passa longe a saúde do trabalhador”, relata.

Eduardo conta que percebeu que precisava de ajuda quando o uso problemático de substâncias começou a interferir em sua vida e no trabalho. Procurou primeiro a família e, com ela, tentou acessar a rede pública de atenção psicossocial. “A gente buscou a rede de atenção psicossocial do município e não encontrou [em 2011]”, relata. Sem encontrar atendimento no território, passou por outros espaços de cuidado que, segundo ele, agravaram o sofrimento que vivia. “As comunidades terapêuticas foram minha porta de entrada para o crack”, relata.

Mesmo quando tentava retomar os estudos ou o trabalho, conta, o estigma criava novas barreiras. “Os espaços de trabalho, espaços de educação, eles não são inclusivos para a pessoa que está vivenciando um período de sofrimento mental, não é inclusivo para a pessoa usuária de substâncias. São sempre espaços de mais estigmatização.”, relata Eduardo, que atualmente é mestrando em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Renda, moradia, trabalho, direitos e vínculos sociais fazem parte das condições em que as pessoas enfrentam o sofrimento e constroem possibilidades de vida. “Se a gente fala de trabalho, renda como fatores que se relacionam à prevenção do suicídio, a gente entende isso como uma necessidade humana, uma necessidade humana básica”, afirma Eduardo. No Setembro Amarelo, colocar essas dimensões no centro do debate amplia a prevenção para além dos serviços de saúde e chama atenção para as condições sociais em que o sofrimento se produz.

 

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

Compartilhe

Outros Artigos

Receba nossas novidades! Cadastre-se.


Fale Conosco

 

Conselho Federal de Enfermagem

Entrequadra Sul 208/209, Asa Sul, CEP:70254-400

61 3329-5800


Horário de atendimento ao público

De segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 17h

Contato dos Regionais