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Pertencer também protege: vínculos no cuidado em saúde mental

No Setembro Amarelo, especialistas destacam que enfrentar o sofrimento psíquico também passa por combater o isolamento e o estigma, fortalecer redes de apoio e garantir a participação na vida em comunidade

25.09.2026

Roda com pessoas negras em ambiente rural
Encontro de Comunidades Quilombolas. Sensação de pertencimento a comunidades e ao território tem efeito protetivo sobre a Saúde Mental (foto: Fátima Tertuliano/CPT)

Ter alguém com quem conversar é importante, mas pertencimento significa mais do que não estar sozinho. É sentir-se parte de uma comunidade, construir vínculos, circular pela cidade, participar da vida cotidiana e ser reconhecido para além de um diagnóstico. No Setembro Amarelo, especialistas destacam que enfrentar o sofrimento psíquico exige também combater isolamento, exclusão e estigma e fortalecer os laços que conectam as pessoas à vida social.

Rede de relacionamentos e participação social integram o conjunto de fatores capaz de promover — ou deteriorar — a saúde mental. “Assim como as condições de moradia, saneamento básico, trabalho e renda, a rede de relacionamentos e engajamento social são dimensões da vida que direta/indiretamente interferem o que chamamos de ‘saúde mental’”, afirma Anderson Funai, coordenador da Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).

Para o psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Walter Oliveira, o senso de pertencimento é uma dimensão fundamental da cidadania. “O senso de pertencimento é a ideia de que a pessoa sente que faz parte de algo maior, de uma comunidade, de uma sociedade, de um grupo. Ela sente que não é rejeitada, que não é expulsa, que não é assim estigmatizada a ponto de ser indesejável.”

O movimento contrário — ser progressivamente afastado dos espaços comuns da vida — pode produzir intenso sofrimento. Oliveira chama atenção para situações cotidianas em que pessoas com transtornos mentais são excluídas “da festinha”, “do namoro”, “do grupinho da escola”, “do clube” e “da vida comunitária”. “A exclusão é uma das coisas mais sofridas, mais cruéis que podem existir. É você realmente extirpar essa pessoa da vida”, afirma.

Pertencer é também exercer cidadania

Pertencer não depende apenas das relações familiares ou de amizade. Significa também ter acesso à cidade e aos espaços nos quais a vida acontece. Oliveira destaca a importância dos recursos comunitários, como centros de convivência, espaços públicos, praças, clubes, centros comunitários e o próprio cotidiano do bairro e do comércio. “A disponibilidade de recursos é essencial para que as pessoas melhorem”, afirma. Para ele, identificar esses recursos e ajudar as pessoas a acessá-los também faz parte do cuidado e contribui para “inserir o sujeito dentro do processo de cidadania”.

A rede de atenção psicossocial precisa estar integrada ao território

O enfermeiro Felippe Costa, do Instituto Perdizes (Iper), centro especializado em Saúde Mental do Hospital das Clínicas da USP, destaca que o cuidado não pode se limitar ao diagnóstico ou aos sintomas. O enfermeiro destaca a necessidade de reconhecer a pessoa em seu contexto: alguém “que vive em um espaço, que tece relações, que trabalha, que convive, que tem uma forma de existir, que tem uma forma de viver que é singular”.

Para Felippe, esse reconhecimento muda a própria maneira de pensar a assistência. “O cuidado só é possível e só vai ser efetivo através do reconhecimento da vida dessa pessoa, e da escuta, para construir junto com ela, entender junto com ela quais são as suas necessidades de saúde”, afirma. “Uma das práticas mais eficazes, inclusive segundo a OMS, para um cuidado em saúde mental é as pessoas terem rede de apoio, por exemplo.”

É nesse ponto que o cuidado em saúde mental ultrapassa a porta do serviço de saúde. Para Felippe, “não dá para cuidar só remitindo um sintoma, mas é preciso entender as causas que levaram a esse adoecimento”. Trabalho, renda, moradia, proteção social, relações pessoais e acesso aos espaços da comunidade integram, nessa perspectiva, as estratégias de cuidado.

O cuidado não chega a todos os territórios

Fortalecer o vínculo com o território é um dos objetivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que atende pessoas em sofrimento mental ou com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, articulando diferentes pontos de atenção para um cuidado integral e contínuo. Com a expansão da rede nos últimos quatro anos, o Brasil conta hoje com mais de 3 mil Centros de Atendimento Psicossociais, segundo dados do Ministério da Saúde. Mas o cuidado nem sempre chegou a todos os territórios – e ainda não chega.

Quando percebeu que precisava de ajuda, o ativista Eduardo Real, do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas, procurou primeiro a família. “Juntos, a gente buscou a rede de atenção psicossocial do município e não encontrou. Era o ano de 2011, mais ou menos, a gente não encontrou a rede de atenção”, relata Eduardo. A falta de atendimento no território, conta, acabou levando a família a procurar outros espaços de cuidado, as chamadas “comunidades terapêuticas”, onde relata experiências de violência que agravaram seu sofrimento. Eduardo passou a usar crack e chegou a ficar meses nas ruas.

Eduardo Real. Homem jovem, com camisa preta de luta antimanicomial
Eduardo Real destaca a importância de políticas públicas e rede de apoio na sua trajetória, de situação de rua ao mestrado na USP

A dificuldade de acesso aos serviços se somava às condições do território. “A gente vive num bairro na periferia de Osasco e, para mim, é muito nítido o racismo ambiental. Porque a gente vive num bairro de difícil acesso, com pouca estrutura de saúde, de lazer.” Para chegar ao trabalho, lembra, eram necessárias “duas conduções, às vezes três”. Eduardo relaciona esse contexto a um período marcado por uso problemático de substâncias, situação de rua e passagens por comunidades terapêuticas.

Políticas públicas fazem diferença

As barreiras permaneciam quando tentava voltar a estudar.  Em um período de recuperação, Eduardo ingressou na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Santos. “Lá eu não recebia acolhimento psicológico, não tinha alimentação, não tinha espaço de moradia estudantil, era na Unifesp Santos”, conta. “Estava longe do meu território, sem minha família, sem rede de apoio”, conta. Sem essas condições de permanência, acabou abandonando a primeira graduação.

Eduardo não desistiu. Após nove anos de tentativas, já formado em gestão pública na Universidade de Santo Amaro (Unisa), entrou na Universidade de São Paulo (USP). “É muito difícil para um trabalhador entrar na USP, ainda mais com todos os problemas de Saúde Mental que eu tinha. Mas o acolhimento fez toda a diferença”, conta Eduardo, citando o ECOs, programa de Saúde Mental da USP.

“Eu tive, e ainda tenho, muito acolhimento dos professores na Saúde Pública. Talvez por todos serem da área de Saúde, entenderam o meu momento”, conta Eduardo, que atualmente cursa o mestrado. Destaca, ainda, bolsa de permanência do PAFPE, como um apoio, fundamental. “Apoio estudantil traz qualidade de vida, reduz o estresse. Estudar na USP sai caro, mesmo sem mensalidade. São horários difíceis de conciliar com o trabalho”, conta. Políticas públicas fizeram a diferença.

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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