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Setembro Amarelo: Condições de trabalho afetam a saúde mental

Longas jornadas, insegurança, baixa autonomia e precarização podem transformar o trabalho em fonte de sofrimento; atualização da NR-1 amplia a atenção aos riscos psicossociais

28.09.2026

sala de telemarketing
Trabalho pode promover, ou deteriorar, a Saúde Mental

O trabalho pode organizar a vida, produzir vínculos, reconhecimento e pertencimento. Mas também pode adoecer. Jornadas excessivas, insegurança, baixa remuneração, falta de autonomia, pressão permanente por produtividade e vínculos precários estão entre as condições capazes de produzir ou agravar o sofrimento psíquico. No Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio, especialistas defendem que olhar para a saúde mental dos trabalhadores exige ir além das respostas individuais e discutir também a forma como o trabalho é organizado.

Para o enfermeiro e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Diego Souza, essa relação é central para compreender o processo saúde-doença. O mesmo trabalho que pode contribuir para a construção da vida social, observa Diego, também pode assumir caráter degradante e produzir sofrimento. “O trabalho, ao mesmo tempo, promove e deteriora a saúde mental”, afirma o professor, que integra o Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes).

Depressão e ansiedade estão associadas à perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano em todo o mundo, com impacto próximo de US$ 1 trilhão anuais para a economia global, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O impacto inclui absenteísmo, presenteísmo — quando a pessoa permanece trabalhando, mas com redução de sua capacidade produtiva — e perda de produtividade.

No Brasil, o impacto aparece também nos afastamentos. Em 2025, foram registrados mais de 546 mil afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais, 15% acima do ano anterior. Dados do INSS reunidos pela plataforma SmartLab, desenvolvida pela OIT e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), contabilizam, entre 2012 e 2024, 70.701 licenças de profissionais de Enfermagem, uma das áreas mais afetadas. Técnicos de Enfermagem aparecem na 6ª posição entre as ocupações com mais afastamentos; auxiliares, na 18ª; e enfermeiros, na 22ª.

enfermeira estressada
70.701 profissionais de Enfermagem foram afastados por questões de Saúde Mental entre 2012 e 2024, segundo levantamento da OIT e MPT, com base nos dados do INSS.

Os números podem ser ainda maiores. “A previdência social registra somente afastamentos a partir de quinze dias. Os afastamentos menores não entram nessa contabilização. Não estão incluídos, também, os profissionais que são MEI ou estatuários, do estado ou munícipio, que têm previdência própria”, afirma o conselheiro federal Josias Ribeiro, coordenador das Câmaras Técnicas do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).

Diego chama atenção para um fenômeno que atravessa diferentes ocupações. Vínculos informais, terceirização, contratos temporários e trabalho mediado por plataformas combinam insegurança sobre jornada e remuneração, intensificação do ritmo e novas formas de controle. Mesmo em empregos formalmente protegidos, baixa remuneração e condições inadequadas podem levar ao acúmulo de vínculos e à exaustão. “Em geral, quanto mais precarizado o trabalho, maior a tendência de perdermos a nossa saúde mental através daquela atividade que deveria nos humanizar”, resume.

Quando o trabalho entra na trajetória do adoecimento

Trabalho precarizado agravou sofrimento psíquico de Eduardo Real
 

O ativista do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas (MNVCT) Eduardo Real relaciona a rotina de jornadas extensas e condições precárias de trabalho ao processo que culminou no uso problemático de substâncias. “Eu era um trabalhador precarizado do telemarketing. E aí eu fazia jornadas, às vezes de 12 horas, de segunda a segunda”, relata. “É muito claro para mim que as condições de trabalho propiciaram o desenvolvimento do uso problemático de substâncias.”

A precarização não terminava quando Eduardo deixava a empresa. Morador da periferia de Osasco, precisava pegar duas ou três conduções para chegar ao trabalho e vivia em um território com pouco acesso a serviços de saúde e lazer. Quando seu quadro se agravou, passou por internações em comunidades terapêuticas, que relata terem sido marcadas por violências, e viveu períodos em situação de rua. A possibilidade de trabalhar tornou-se ainda mais precária. “Na situação de rua a gente tem muita dificuldade de trabalhar, né? Quando trabalha é com trabalhos extremamente precarizados, por exemplo, a reciclagem. Estando em situação de rua eu recorri a isso”, relata.

Mesmo nos períodos em que tentava reconstruir a vida, estudar e voltar ao trabalho, Eduardo encontrou outra barreira: o estigma. “Os espaços de trabalho, espaços de educação, eles não são inclusivos para a pessoa que está vivenciando um período de sofrimento mental, não é inclusivo para a pessoa usuária de substâncias”, afirma. “Esse corpo que está passando por problemas, ele automaticamente é excluído dos espaços. E aí, novamente, volta para marginalidade”.

NR-1 coloca riscos psicossociais no centro da prevenção

motociclistas
Fenômeno da “überização” precariza direitos dos trabalhadores e gera adoecimento

A relação entre organização do trabalho e saúde mental ganhou novo peso regulatório no Brasil com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A norma passou a incorporar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), ampliando a responsabilidade das organizações na identificação e prevenção de situações relacionadas à organização do trabalho que podem afetar a saúde mental.

Para Diego, a mudança é importante por dar visibilidade às condições concretas que podem comprometer a saúde mental. É preciso identificar “aquelas cargas de trabalho presentes nas diversas ocupações que provocam sofrimento psíquico nos trabalhadores” e que devem ser “controladas, mitigadas e sobretudo eliminadas do processo de trabalho”, afirma. O pesquisador faz, porém, uma ressalva: sem a participação dos trabalhadores na identificação dos problemas e na construção das respostas, os efeitos da norma podem ser “inócuos ou insuficientes”. Para ele, os próprios trabalhadores devem ser protagonistas na identificação e na intervenção sobre os fatores que deterioram sua saúde mental.

“Independente da resiliência individual, os processos de trabalho têm consequências sobre a saúde mental dos empregados”, reforça a enfermeira Dorisdaia Humerez, doutora em Enfermagem e Saúde Mental. “A ideologia gerencialista, que busca canalizar todo o capital mental do indivíduo para o trabalho, pode desencadear quadros agudos de estresse, ansiedade e depressão. A vigilância panóptica também mina a motivação intrínseca do indivíduo, o sentimento de coletividade”, acrescenta.

A prevenção, nessa perspectiva, passa também pelo próprio ambiente de trabalho. Reduzir os fatores que levam ao adoecimento, ampliar a autonomia e garantir a participação dos trabalhadores na identificação dos riscos são medidas que deslocam o enfrentamento do sofrimento psíquico do indivíduo para a organização do trabalho. “Não é o desejo individual que vai fazer com que o trabalho me traga prazer e promova minha saúde mental. É a efetiva transformação do trabalho”, conclui Diego.

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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