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Brasil recupera cobertura vacinal após anos de queda

“Nenhuma conquista é permanente”, alerta enfermeira epidemiologista Ethel Maciel, ex-secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, que esteve à frente da retomada da vacinação

17.10.2026

Zé Gotinha é símbolo do Programa Nacional de Imunizações (foto: SEMSA/Manaus)

A cobertura da vacina BCG chegou a 97,9% em 2025, após anos de queda na imunização infantil. Dados dos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde indicam que, neste Dia Nacional da Vacinação (17 de outubro), há razões para comemorar, embora completar o esquema vacinal ainda seja um desafio.  Das 16 vacinas previstas no calendário infantil para o primeiro ano de vida, três registraram cobertura superior a 90%, enquanto outras dez ultrapassaram 80%.

“Nenhuma conquista é permanente, é preciso que nós tenhamos uma ação constante, tanto de financiamento quanto de valorização dessa política, quanto de investimento em ciência, em informação, porque nós vimos que a desinformação foi um grande problema”, afirma ex-secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Ethel Maciel. Doutora em epidemiologia, com pós-doutorado na universidade Johns Hopkins, Ethel liderou, à frente da SVSA/MS, a retomada na vacinação em massa no Brasil em 2023.

A Enfermagem tem papel estratégico na ampliação da cobertura e na proteção da população. São 200 mil profissionais quase 40 mil salas de vacinação em todo o Brasil. Para Ethel, o vínculo estabelecido entre o profissional, a pessoa vacinada e seus familiares é fundamental para enfrentar a hesitação vacinal. “O profissional da enfermagem é um profissional que a sociedade confia, então eu computo ao profissional da enfermagem uma potência enorme para que a gente possa ter avanços mais consistentes ainda na recuperação das coberturas vacinais”, destaca.

Mas o fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI) ainda depende de investimentos contínuos, combate à desinformação e atuação das equipes de saúde, alerta Ethel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). A imunização precisa permanecer entre as prioridades centrais do Estado, com continuidade do financiamento, da aquisição e da distribuição de vacinas. “Demora muito tempo para construir uma política consolidada, como a nossa política de imunização, mas é muito rápido destruir”, afirma a enfermeira epidemiologista.

Enfermagem e a hesitação vacinal

 

Mulher loira de meia idade fala ao microfone
Ethel Maciel, em visita ao Cofen

A desinformação e a hesitação vacinal estão entre os desafios para ampliar a adesão da população. A Enfermagem ocupa posição estratégica tanto na administração dos imunizantes quanto na orientação de usuários e familiares. O contato direto com a população permite acolher dúvidas, esclarecer informações incorretas e fortalecer a confiança nas vacinas.

“É preciso investir mais nesse profissional, é preciso cuidar mais dessa equipe que fica ali na sala de vacina e também daquelas que vão fazer as ações em áreas mais remotas”, defende Ethel.

“A atuação da Enfermagem na sala de vacina, se expande para a organização da equipe, conservação dos imunobiológicos e no controle da cadeia de frio. Também envolve a avaliação da situação vacinal, a administração das doses, o registro correto nos sistemas oficiais, o monitoramento de eventos supostamente atribuíveis à vacinação ou imunização, a busca ativa de pessoas com esquemas incompletos e a educação em saúde”, explica o enfermeiro Ricardo Siqueira, da Câmara Técnica de Atenção à Saúde (CTAS/Cofen),

“A hesitação vacinal não deve ser tratada de forma simplista. Ela pode se manifestar como recusa, atraso, dúvida ou decisão de tomar apenas algumas vacinas, o que é imprescindível se evitar a disseminação de informações não verificadas”, reforça Ricardo. “Pela capacidade técnica e capilaridade, com presença em todo território nacional, o enfermeiro está em uma posição estratégica para promover a confiança vacinal”, avalia.

Vacinação infantil começa antes do nascimento

A proteção contra doenças previníveis por vacinas também envolve o acompanhamento durante a gestação. No Sistema Único de Saúde (SUS), as gestantes têm acesso a vacinas contra influenza, Covid-19 e hepatite B, além da dTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche. Em 2025, o Brasil também incorporou a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) para gestantes, ampliando a proteção dos bebês nos primeiros meses de vida.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), aproximadamente 47% das mortes de crianças menores de cinco anos no mundo ocorrem no período neonatal, que compreende os primeiros 28 dias de vida.

“Vacinar é um ato de cuidado, de responsabilidade coletiva e de compromisso com o futuro. Cada dose aplicada representa uma oportunidade de prevenir doenças, reduzir internações, salvar vidas e garantir que nossas crianças cresçam com mais saúde, segurança e qualidade de vida”, afirma a coordenadora da Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde do Neonato e da Criança (CTESNC/Cofen), Ivone Amazonas.

A Atenção Primária à Saúde tem papel central nesse processo, ao integrar o pré-natal, a avaliação da situação vacinal e a orientação das gestantes. Desigualdades territoriais, dificuldades de acesso aos serviços, desarticulação entre as equipes e circulação de informações falsas podem comprometer a adesão. A atuação dos profissionais de Enfermagem contribui para identificar atrasos, recomendar as doses indicadas e facilitar o acesso à vacinação.

Para Ethel Maciel, o sucesso do PNI depende de decisões políticas e da capacidade de coordenação do governo federal. A aquisição de imunizantes, a incorporação de novas vacinas e a articulação com estados e municípios exigem planejamento e recursos. “A imunização é política de Estado”, afirma, destacando a relação entre vacinação, democracia e redução das desigualdades.

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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