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Crise climática pressiona sistemas de saúde e pesquisadores defendem emergência internacional

Cientistas pedem que a OMS e Estados-membros reconheçam a crise climática como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. No Brasil, secas, calor extremo, queimadas e alterações no regime dos rios já dificultam o acesso ao SUS e a continuidade do cuidado, especialmente na Amazônia

01.10.2026

Manifestação durante a Cúpula dos Povos (COP-30), em Belém

A crise climática deve ser declarada uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), defendem pesquisadores em carta na revista científica The Lancet. A carta conclama a Organização Mundial de Saúde (OMS) e seus estados-membros a acionarem mecanismo do Regulamento Sanitário Internacional. “Os impactos sobre a saúde deixaram de constituir uma ameaça futura”, afirmam os pesquisadores. Eventos extremos já provocam emergências sanitárias que atravessam fronteiras, sobrecarregam sistemas de saúde e atingem de maneira desproporcional as populações de países de menor renda.

“As mudanças climáticas impactam diretamente o sistema de saúde e a Enfermagem, seja pelo aumento de doenças respiratórias, surtos infecciosos ou emergências em desastres naturais. Por isso, falar em saúde sustentável é reconhecer que o cuidado humano e o cuidado ambiental são inseparáveis”, afirma a conselheira federal Ludimila Magalhães.

“A prática da Enfermagem impacta diretamente o meio ambiente, desde o uso e descarte de materiais hospitalares até as decisões relacionadas à promoção da saúde e à prevenção de doenças. Quando um enfermeiro orienta sobre o uso racional de medicamentos, reduz internações desnecessárias ou incentiva hábitos de vida saudáveis, ele também está atuando na mitigação das mudanças climáticas, ainda que de forma indireta”, avalia.

No Brasil, os efeitos descritos pelos pesquisadores levaram à expansão de arboviroses além das fronteiras geográficas tradicionais. A maior parte dos casos confirmados em 2025 foi na região Sudeste, segundo dados do Ministério da Saúde.

Do clima à continuidade do cuidado

Salinização afeta comunidades ribeirinhas no Amapá

A crise climática já é uma emergência na Amazônia. Em 2024, uma seca severa atingiu 69% dos municípios da região, isolando populações e prejudicando inclusive a continuidade de tratamentos. Com a redução extrema do nível dos rios, embarcações ficam impossibilitadas de circular, insumos deixam de chegar às comunidades e pacientes enfrentam dificuldades para alcançar os serviços de saúde. O avanço do mar levou à salinização de rios no Amapá, comprometendo a sobrevivência de comunidades ribeirinhas.

Quando o rio deixa de ser navegável, não é apenas a mobilidade que fica comprometida. A própria rede de atenção à saúde pode ser interrompida. Medicamentos, vacinas, profissionais e outros insumos dependem de uma logística fortemente vinculada aos rios, especialmente nas comunidades ribeirinhas e áreas mais remotas.

A emergência climática afeta simultaneamente as condições de vida da população e a capacidade de funcionamento do sistema de saúde. Secas prolongadas, enchentes, queimadas e ondas de calor podem dificultar o deslocamento das equipes, interromper o abastecimento de insumos e comprometer a continuidade da assistência. Além disso, calor extremo, poluição do ar, insegurança alimentar e dificuldades de acesso à água e ao saneamento tendem a afetar mais intensamente crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e populações socialmente vulnerabilizadas.

A resposta passa também pela capacidade de adaptar a infraestrutura do SUS. O Ministério informa que o AdaptaSUS reúne 27 metas e 93 ações e prevê investimentos de R$ 9,8 bilhões até 2035.

Uma emergência internacional de saúde

É diante desse cenário que a carta publicada na The Lancet, assinada por Nicholas Brink, Robb Butler, Fortunate Machingura e Matthew Chersich, propõe utilizar um dos principais mecanismos internacionais de resposta a emergências sanitárias.

O Regulamento Sanitário Internacional prevê a declaração de uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional justamente diante de acontecimentos extraordinários que demandam resposta coordenada entre países. Os autores argumentam que a crise climática já reúne características que justificariam o acionamento do mecanismo, para fortalecer a cooperação e o financiamento internacional, priorizar o cuidado às populações atingidas e colocar a saúde no centro das políticas de redução das emissões de gases de efeito estufa.

A carta chama atenção ainda para uma dimensão de desigualdade que também se manifesta dentro do Brasil: quem sofre mais intensamente os efeitos da crise climática nem sempre é quem mais contribuiu para produzi-la. Países de menor renda, afirmam os autores, respondem por uma parcela menor das emissões, mas dispõem de menos recursos para enfrentar seus impactos

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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