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Toda voz tem valor: saúde mental exige escuta, cuidado e condições dignas de vida

No Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), especialistas destacam que acolher o sofrimento passa por ouvir quem o vivencia, combater o estigma e por variáveis como renda, moradia, trabalho, e acesso a direitos

10.10.2026

Dia Mundial da Saúde Mental destaca a importância da escuta atenta

Ouvir sem julgar, reconhecer o sofrimento e considerar a experiência de quem busca cuidado. No Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), o princípio de que toda voz tem valor chama atenção para uma dimensão essencial do cuidado: pessoas não podem ser reduzidas a diagnósticos, sintomas ou crises. Suas histórias, necessidades e diferentes formas de vivenciar o sofrimento precisam fazer parte das decisões sobre o próprio tratamento.

A escuta ativa e a validação das experiências também ajudam a enfrentar um obstáculo que permanece presente dentro e fora dos serviços de saúde: o estigma. Para o psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Walter Oliveira, o sentimento de pertencimento é parte importante da cidadania. “O senso de pertencimento é a ideia de que a pessoa sente que faz parte de algo maior, de uma comunidade, de uma sociedade, de um grupo. Ela sente que não é rejeitada, que não é expulsa, que não é assim estigmatizada a ponto de ser indesejável.”

Essa perspectiva desloca o cuidado de uma lógica centrada exclusivamente no diagnóstico para outra que considera a trajetória e as possibilidades de cada pessoa. Walter relaciona esse olhar à abordagem recovery, que parte da possibilidade de reconstrução da vida mesmo diante de transtornos mentais graves. “Todas as pessoas, independente do seu grau de gravidade, tendo um diagnóstico de qualquer tipo, de qualquer nível, essa pessoa consegue, com ajuda, encontrar ou reencontrar um significado na sua vida, encontrar uma vida com significado.”

Reconhecer a voz de quem está em sofrimento significa também considerar sua experiência na construção do próprio cuidado. O ativista do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas Eduardo Real relata que, ao procurar ajuda junto com a família, não encontrou a rede de atenção psicossocial em seu território. O caminho que se seguiu, relata, foi marcado por internações e por experiências de violência em espaços que deveriam acolhê-lo. “Depois dessas experiências de violência dentro de espaços que deveriam ser de cuidado e de não encontrar a rede de atenção psicossocial no meu território, né, tudo isso em conjunto me levou para lugares que eu nunca imaginei estar.”

Saúde mental está em todos os níveis da assistência

O cuidado em saúde mental não começa nem termina nos serviços especializados. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) integram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e, ao lado dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), funcionam como portas de entrada e pontos de organização do cuidado. Situações de sofrimento ou crise também podem aparecer em diferentes espaços da assistência e exigem profissionais preparados para acolher e ouvir.

Em situações de crise, o tempo de escuta pode ser decisivo. “O maior desafio não é apenas a crise psiquiátrica em si, mas preparar profissionais para responder a ela com competência técnica, segurança e humanidade. Temos a falta de qualificação profissional para lidar com pacientes psiquiátricos, especialmente em crise”, afirma a professora Dorisdaia Humerez (Unifesp). Intervenções baseadas em comunicação terapêutica, empatia e desescalonamento verbal podem evitar que o atendimento seja conduzido pela lógica do confronto. “Na Saúde Mental, não podemos ter pressa. Intervenções baseadas em evidências indicam que o uso da comunicação terapêutica e afetiva, empatia e desescalonamento verbal podem reduzir significativamente a necessidade de contenção física ou química”, afirma Dorisdaia, doutora em Enfermagem e Saúde Mental.

Saúde mental é uma construção coletiva

Escutar a experiência individual não significa tratar o sofrimento como um problema exclusivamente individual. Renda, moradia, saneamento, acesso a direitos, relações sociais e condições de trabalho interferem nas possibilidades de viver com autonomia e bem-estar. Estudos recentes sobre proteção social reforçam essa relação e colocam as condições concretas de vida no debate sobre saúde mental.

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), ao incorporar fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, ampliou a responsabilidade das organizações sobre situações decorrentes da organização do trabalho que podem comprometer a saúde mental. “Independente da resiliência individual, os processos de trabalho têm consequências sobre a saúde mental dos empregados”, afirma Dorisdaia Humerez.

“A ideologia gerencialista, que busca canalizar todo o capital mental do indivíduo para o trabalho, pode desencadear quadros agudos de estresse, ansiedade e depressão. A vigilância panóptica também mina a motivação intrínseca do indivíduo, o sentimento de coletividade”, avalia a enfermeira. A fim da escala 7×1, previsto na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, pode ter impacto no bem estar do trabalhador, avalia. Pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada com 1.030 pessoas, mostrou que 67% dos entrevistados consideram que a escala 6×1 piora a saúde mental; 61% apontam prejuízos ao sono e ao descanso e 83% afirmam sentir que vivem cada vez mais cansados. Entre quem trabalha nessa escala, 85% relatam sacrificar saúde e lazer em nome da renda.

No Dia Mundial da Saúde Mental, reconhecer que toda voz tem valor significa ampliar o próprio significado de cuidado. Ouvir antes de julgar, reconhecer diferentes trajetórias e enfrentar o estigma que afasta pessoas dos serviços, do trabalho e da vida comunitária. Mas significa também olhar para aquilo que existe ao redor de cada história: renda, moradia, jornadas de trabalho, relações sociais, acesso aos serviços de Saúde e possibilidades reais de exercer cidadania. 

Fonte: Ascom/Cofen - Clara Fagundes

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